segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Debate sobre o filme: Crime e Castigo

Culpa
Paul Kardous


Filme:  Crime e Castigo (Crime and Punishment - 2002)

Direção:  Julian Jarrold

Sinopse: 



O longa traz a história de Raskolnikov (John Simm), um inteligente e bem conceituado jovem estudante, que massacrado pelo mundo à sua volta, comete um assassinato para testar sua coragem e princípios. 


Da obra de Dostoievsky que vai além da trama e aprofunda-se na trágica história deste anti-herói, um dos personagens mais cativantes da literatura, que combina juventude, paixão e a busca pela essência perdida.


Data: 29/11/2014
Horário: 14:00 hs
Valor: R$ 25,00
Endereço: Av. Rebouças, 1516 - 6º andar
Contato: paulkardous@uol.com.br

Um comentário:

  1. O que o livro me proporcionou a pensar:

    Sabemos que podemos tudo, mas não devemos. Não devemos porque não estamos sozinhos, mas podemos porque é na solidão que o desejo pesa. Planejar ou seguir o imediatismo das ideias não interfere no valor da ação, mas nos coloca em posições diferentes frente ao que se pode ou não prever, já que a ruminação mental parece nos aproximar da loucura enquanto que o impensado nos faz loucos a posteriori, em sua natureza mais crua. E o tempo que temos pra pensar, se for em excesso e destinado só a tal coisa, anda acompanhado do ócio rotineiro que nos remete à fantasia destinada a confabular cenas antes inimagináveis, que podem não ter nada de real, mas que podem fazer-se verdades com um só passo no escuro. Mas o desespero de não encontrar recursos para contornar um percalço intransponível faz com que nos desconheçamos e talvez seja a partir deste momento que passemos a nos aproximar mais fielmente do conhecimento que ignoramos sobre nós.
    Consciência é a prova que fica pelo chão, entregando o sujeito ao que ele luta para esconder. Loucura é ver essa prova como escancaradamente invisível, sustentando o que vem à cabeça e negando o que não pode ir de encontro às ideias. E a culpa é a consciência da loucura de ser apenas mais um a se atormentar. Culpado é aquele que encerra sua vida por não mais suportar, seja morrendo ou vivendo morbidamente, e que tem apenas relatos de existência pelo sofrimento que traz a vida de volta.
    Crime é renegar a si mesmo, é não poder sustentar o que se é, é não respeitar seu avesso, é ignorar o que vier a advir de mais surpreso ao seu conhecimento. Mas crime também é interferir no outro negativamente ou da maneira invasiva que não se espera. Castigo é sempre o que vem depois, que avassala a paz e faz do pensamento exacerbado a principal atividade desgostosa. Crime é se propor a colocar na bagagem o risco de assumir as escolhas. Castigo é quando essa bagagem parece pesada demais. Crime é solitário, castigo é mais solitário ainda. Não existe crime perfeito porque o castigo nos entrega a nós, de bandeja, de graça, de maneira até leviana, que nos tortura memória após memória do que foi feito e do que se deixou de fazer.
    A compaixão abre portas e ouvidos, envolve pedido de que um chore com o outro e a dor do outro passa a não ser mais sentida solitariamente, por um só. Quem se atreve a sofrer, deve ter o atrevimento de dividir a dor e, quem a receber, deve ter o mínimo de querer. A fala sempre ajuda quando não se consegue mais articular as palavras e não é na solidão que se ama e é amado. O amor transborda pelo entendimento, só acolhe, não pergunta, mais divide do que soma. É um 'não saber' juntos e não há problema por isso.
    Arrepender-se é entregar-se, não ao outro, mas a si mesmo. Reconhecer cansaço na luta mental e gritar aos cantos que precisa de descanso. Reconhecer é relativo e particular.
    Quando responsabiliza-se por determinado desejo, o sujeito paga caro à vista em prestação de tempo. A esperança iludida no que há por vir é fundamental para se suportar o que está a se viver. Só há crime quando há confissão e carregar a culpa como castigo é indício claro do desejo à vida com seus descompassos. E tudo, tudo mesmo, só faz sentido se houver alguém a nossa espera, mesmo que ao longe, em disfarce, que nos lembre que ainda é possível e preciso confiar. Não há homem tomado de mal por inteiro e não há homem que só tenha o bem a exalar, já que o todo faz parte de cada. É o que se é e se pode ser, e não somente, mas só.

    Neila Corrêa Bastos

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